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Regata de negrão: como essa peça virou símbolo da estética masculina negra

regata de negrão

Regata de negrão: de onde vem esse nome?

A expressão ‘regata de negrão’ não tem uma origem documentada, mas trata-se de uma forma popular de chamar a típica regata canelada aqui no Brasil.

O mais curioso sobre essa peça de roupa é que não é só no nosso país que ela ganhou um nome popular. Mas em outros cantos do mundo, os nomes são mais polêmicos:

  • no Estados Unidos, é conhecida como “camiseta de bater em mulher” (“wife beater shirt”), pois foi associada a homens que cometeram crimes contra as mulheres e personagens de homens violentos do cinema;
  • na Angola, é chamada de “partes cornos”, pois quando alguém era traído, colocava essa regata para ir brigar;
  • na França, ela é chamada de Marcel, uma referência ao fabricante Marcel Eisenberg, que produziu as primeiras regatas caneladas para operários.

Se em outros países as expressões dadas para a regata remetem à violência, aqui no Brasil tivemos outro rumo.

O termo regata de negrão ficou associado de forma positiva à estética negra masculina, com fortes influências da cultura do hip-hop e até mesmo do videogame (sim, estamos falando do CJ, do GTA).

Mas para entender como ela chegou até aqui, precisamos acompanhar toda a transformação dessa peça na cultura popular, desde o seu surgimento até a construção da masculinidade negra.

snopp dogg vestindo a famosa regata de negrão

Entramos pela porta de serviço, nossa grana não: o surgimento com a classe operária

Em 1860, operários das Halles de Paris, agricultores e soldados cortaram as mangas dos seus suéteres para terem mais liberdade de movimento e ainda assim manterem o tronco de seus corpos protegido do frio. 

E não demorou para que a indústria têxtil notasse essa necessidade de mercado e começasse a produzir o que hoje chamamos de regatas caneladas.

E quem notou tal necessidade foi Marcel Eisenberg, o nome por trás da criação e da fabricação em escala comercial desta roupa para trabalhadores. Por isso, na França, ela é tão conhecida como a regata Marcel.

Ou seja, antes de se tornar regata de negrão, a peça surgiu totalmente associada ao trabalho braçal, ao corpo masculino e à classe trabalhadora.

foto da marca regata de negrão

“Camiseta de bater em esposa”: o início da fama violenta

Em 1947, um homem chamado James Hartford Jr. espancou sua esposa até a morte em Detroit, nos Estados Unidos.

Ao ser preso, Hartford estampou manchetes de jornais com o título “Agressor de esposa” e nas fotos, ele usava uma regata branca canelada.

É nesse momento da história que o item começou a carregar um estereótipo de roupa de homem potencialmente violento.

E, após esse crime, Hollywood ajudou a reforçar essa associação. 

A regata branca como uniforme de homens durões no cinema

Em 1951, chega às telas de cinema o filme Um Bonde Chamado Desejo, com Marlon Brando como protagonista.

Em uma determinada cena, o personagem de Brando confronta agressivamente sua esposa e a irmã dela.

E justamente nesse take estava ela, a regata branca canelada, marcando presença no corpo do ator.

A escolha não foi casual. A própria figurinista Lucinda Ballard afirmou que escolheu essa roupa para que o personagem “parecesse mais um animal selvagem do que um humano”:

“Quando a camiseta fez sua estreia no filme, chocou o público pela escolha desse estilo específico para combinar com o comportamento do personagem. Esse personagem foi concebido para ser dominante e abusivo, causando estragos na trama.”

A imagem se repetiu em outros filmes e a regata apareceu em personagens associados a origens humildes, criminalidade ou comportamentos violentos, como:

  • Warren Beatty em Bonnie e Clyde;
  • James Caan em O Poderoso Chefão;
  • Sylvester Stallone em Rocky.

Assim, o cinema criou um código: regata branca + jeans + físico masculino que comunica força.

E décadas depois, o videogame reproduziu esse código para uma nova geração, dando os primeiros passos para a criação da expressão regata de negrão.

Quem vem das ruas, não joga fácil

O GTA San Andreas é um exemplo clássico da continuidade do código visual que o cinema criou para a regata branca canelada.

Lançado em 2004 com um enredo de uma Califórnia fictícia da década de 1990, o jogo é marcado por tensões entre gangues e corrupção policial.

Neste jogo, temos CJ como protagonista. Ele é um homem negro inserido na cultura de rua de Los Santos de 1992 e usa a tão famosa regata branca com uma calça jeans e tênis. 

E foi assim que o GTA levou para milhões de jovens do mundo todo uma linguagem que o cinema criou.

É também nessa época que a história da regata de negrão começa a se aproximar do hip-hop e da estética masculina negra.

“Eu uso tanto ela [a regata canelada branca] que meu apelido na rua já é até CJ.”

– Pedro Melodia, criador de conteúdo de cultura afro em vídeo: 

Meu estilo é pesado e faz tremer o chão

Nos anos 1990 e início dos anos 2000, a regata canelada aparece com frequência no visual de rappers:

  • 50 Cent usa a peça em seus clipes P.I.M.P., Candy Shop e Just A Lil Bit;
  • Ludacris veste a peça na capa do seu álbum Back for the First Time;
  • Nelly usa a regata branca na capa de seu álbum Sweatsuit e no clipe de Flap Your Wings;
  • Ja Rule usa a peça em dois tons, preto e branco, no clipe de Wonderful;
  • Ice-T está com o modelo no material promocional de Home Invasion;
  • Jay-Z coloca a regata branca em cena no clipe de Big Pimpin e de I Just Wanna Love U (Give It 2 Me);
  • NAS estampa a capa de The Essential NAS com ela no corpo;
  • Tupac é capa da revista The Source com o kit regata branca + corrente no pescoço e joias no pulso.
50 cent e nas tank top

Ou seja, é nesse período que a relação entre regata canelada e hip-hop dá os seus primeiros passos e temos homens negros reforçando essa estética visual, algo que se mantém até hoje. 

E ao dizer até hoje, é literalmente até os anos atuais. Um exemplo é o rapper 50 Cent usando a peça em seu clipe In da Club, em 2003, e, em 2022, durante o show do intervalo do Super Bowl, vestindo-a novamente em sua entrada inspirada no videoclipe.

O mesmo modelo, quase 20 anos depois:

Antigo e moderno, imortal

Essa roupa e a sua estética atravessaram as gerações seguintes do hip-hop. No cenário atual, temos referências como:

  • Future, com a música Tank Top Pluto (Pluto de regata, em tradução), em que o cantor usa a regata canelada como um símbolo de atitude para falar sobre ostentação, afirmação de status e respeito;
  • Lil Nas X na performance de HOTBOX com uma regata branca e bandana rosa no pescoço;
  • Travis Scott, 21 Savage, Don Toliver e Tyga usando o item no dia a dia ou em editoriais;
  • KayBlack, Major RD, MC Cabelinho, MD Chefe e Matuê vestindo a regata branca no dia a dia, em shows ou editoriais.

É interessante notar que, em cada geração, ela aparece combinada a diferentes acessórios, cortes de cabelo, tatuagens e peças de streetwear. 

O que permanece é a presença do corpo como parte importante da construção estética desses artistas.

E assim, criou-se uma associação da peça com o imaginário do visual masculino, dando origem ao que aqui no Brasil carinhosamente chamamos de regata de negrão.

md chefe usando regata de negrão

Quem tem noção das coisas, sente o peso da maldade: usar a regata X reproduzir estereótipos

 “Em nossas comunidades, a regata era criminalizada, demonizada, associada à violência doméstica, à pobreza e ao perigo. Você não podia usá-la na escola. Você não podia usá-la em um avião. Você definitivamente não podia usá-la na TV sem que alguém dissesse que você parecia “pouco profissional”.”

– Victor Quinnuell Vaughns, jornalista

As aspas do repórter trazem à tona o velho padrão racista de associar itens do vestuário da cultura negra como inferiores. Aconteceu com o streetwear, peças oversized, brincos de argola, óculos Juliet e tantas outras tendências de moda criadas pela comunidade negra.

A regata canelada, em especial, carrega ainda mais estereótipos para um homem negro devido ao seu passado associado a homens violentos ou sensualizados e viris, seja nas reportagens da vida real ou no imaginário do cinema hollywoodiano dos anos 1950.

Mas existe outra camada nessa história e é ela que deve ser levada em conta: a de homens que sentem sua autoestima elevada e seu estilo completo ao vestir a regata de negrão.

Basta uma breve pesquisada nas redes sociais sobre peças de roupas que favorecem homens negros que logo você verá um fashionista listando ela.

“Para todo negrão, a sensação de poder é a regata canelada. E tamanho P, que fica justa e colada no corpo.”

– Junior Gama, criador de conteúdo 

Ou seja, essa regata, dentro da cultura negra, significa:

  • estilo;
  • sensualidade;
  • pertencimento;
  • autoestima;
  • aceitação;
  • liberdade;
  • identidade.

E para quem quer começar a aderir à peça em seu estilo, o combo sagrado da estética de negrão é composto por: regata canelada branca + calça jeans + bota Timberland:

@_gu1ne

Me corrija se eu estiver errado, mas esse é classico, na rua nunca falha 😤🙅🏿‍♂️ #Streatwear #outfit #negrosestilosos #fashionstyle #modaderua

♬ BALST OFF DROP 26.12 – XmegaLxl

Ou seja, a regata de negrão não necessariamente é o “look”; ela pode ser uma peça dentro de uma composição estética maior. 

Conheça as músicas feitas por pretos usadas de referência neste artigo:

  • MV Bill, Só Deus Pode Me Julgar  
  • Sabotage, Mun Rá
  • Racionais, Capítulo 4, Versículo 3
  • Criolo, Ainda Há Tempo