A história da bandana tem uma surpresa em cada dobra.
Ela começa no rosto de cowboys, passa pela resistência de mulheres escravizadas, se transforma em símbolo de briga de gangues e ao mesmo tempo da luta de mexicanos, vira código secreto entre gays e explode como ícone no hip-hop.
Ou seja, estamos falando em um acessório que atravessou fronteiras, classes sociais e movimentos políticos.
Estamos falando de um lenço que vai além da moda e conta com memória, luta e identidade.
Vem descobrir, nó por nó, como esse simples pedaço de pano foi escudo, bandeira e manifesto ao longo das décadas.
Breve linha do tempo da história da bandana
Não existe um consenso sobre a origem da bandana.
Há quem diga que surgiu entre o sul da Ásia e o Oriente Médio, no século XVII. Outros apontam para o Velho Oeste do século XIX.
Abaixo, veja todos os movimentos que adotaram o seu uso durante algum momento da história.
- Século XIX (velho oeste): era um equipamento de trabalho usado por cowboys e trabalhadores para se proteger do sol, da poeira e do suor, ou como uma máscara improvisada para esconder a identidade.
- Hippies & Rock (Décadas de 1960-70): é absorvida pela contracultura e vira símbolo de liberdade entre os hippies e um acessório de estilo rebelde no cenário do rock; aqui, começa sua vida como declaradora de identidade.
- Revolução americana (1976): Martha Washington, esposa do general George Washington, durante a Revolução Americana de 1976, fez uma bandana como lembrança com a imagem do Comandante-em-Chefe e, após isso, o acessório com imagens patrióticas se tornou popular para campanhas políticas.
- Culturas Urbanas (Década de 1970-80): nas ruas de Los Angeles, gangues como Bloods e Crips adotam cores específicas de bandanas (vermelho e azul) como símbolo de afiliação.
- Comunidade LGBTQIA+ (Décadas de 1970-80): dentro da comunidade gay, surge o “Código do Lenço” (Hanky Code), que usa cores e padrões de bandanas para comunicar preferências de forma discreta.
- Décadas de 1990 (Hip-Hop & Skate): a explosão global do hip-hop leva a bandana para o centro do palco, com ícones como Tupac e Snoop Dogg a tornando um elemento essencial da estética do gênero, enquanto no skate, ela vira item prático e de atitude, sinônimo de liberdade e rebeldia.
- Streetwear e ressignificação (anos 2000 em diante): a bandana se consolida como pilar da cultura streetwear, ao mesmo tempo em que é constantemente ressignificada, seja como símbolo de luta em movimentos sociais, seja como acessório de moda de luxo.

Me acorrentaram, mas não meus pensamentos
Para mergulhar em uma das camadas mais profundas da história da bandana, vamos começar olhando para as mulheres africanas e afrodescendentes durante a escravidão.
No Caribe, o lenço de cabeça, fosse turbante ou bandana, era muito mais que proteção. Era um elo vital com a ancestralidade, um ato de preservação cultural e espiritual.
Mesmo quando seu uso foi imposto por leis opressoras, como as Leis Tignon de 1786 na Louisiana, que forçavam mulheres negras a cobrirem os cabelos, a resposta foi de reinvenção e dignidade.
Isso porque elas transformaram a obrigação em arte e passaram a amarrar os tecidos com criatividade e estilo, assim, afirmavam a sua identidade e beleza em meio à brutalidade.
Essa é uma parte da história da bandana feita de resistência silenciosa.
Ela não precisa disso, ela tem dois empregos
E se aquele mesmo pano que um dia serviu para oprimir mulheres negras escravizadas pudesse ser ressignificado como coroa?
Foi exatamente isso que fez a atriz Tichina Arnold, que deu vida a Rochelle, de Todo Mundo Odeia o Chris.
Ao conectar-se com essa herança ancestral, ela lançou nos anos 2000 a linha de bandanas China Moon Rags, que em seu auge, criou até bandanas cravejadas com pedras Swarovski.
Nesse período da história da bandana, ela era mais do que um acessório brilhante, era uma declaração de estilo, de símbolo de luxo, autoestima e realeza negra.
Ao assumir dois empregos (alô, ela não precisa disso!), de atriz e dona da marca, a eterna Rochelle devolveu às mulheres negras um objeto de poder e glamour.
Para ver um pedacinho dessa história, dê o play no vídeo abaixo do influencer Cesar Nascimento:
Quem vem das ruas, não joga fácil: bandanas, gangues e a estética hip-hop
Nos anos 1970, a história da bandana ganha um novo capítulo marcado por uma guerra de gangues dos guetos de Los Angeles:
- quem pertencia a gangue dos Bloods, usava bandanas vermelhas;
- quem fazia parte da gangue dos Crips, usava bandanas azuis.
O conflito começou por domínio territorial, poder e respeito dentro das comunidades afro-americanas de LA, marcada por ciclos de retaliação e violência.
Os Crips surgiram primeiro, formados por jovens negros de bairros pobres do sul de Los Angeles, em um contexto de desemprego, racismo e violência policial.
Com o tempo, o grupo cresceu e passou a dominar várias áreas.
Os Bloods se formaram pouco depois, em grande parte como uma aliança de gangues menores que se uniram para se opor à crescente agressão e domínio dos Crips.
A partir daí, a rivalidade virou uma disputa constante.
Neste cenário, o controle de quarteirões específicos, onde se vendiam drogas e se exercia influência, era a principal causa dos confrontos. Invadir o território rival era um ato de guerra.
Essa guerra, que visualmente era ilustrada pelas bandanas, criou um clima de medo, desconfiança e trauma em bairros inteiros, além de vitimar inúmeras pessoas não envolvidas, como crianças, em tiroteios e balas perdidas.
A resposta do estado foi uma repressão policial massiva e políticas de “Guerra às Drogas” que levou ao encarceramento em massa.
Mas a beleza da história da bandana está em sua capacidade de se reinventar.
Cinco décadas depois, em um dos seus movimentos mais poderosos da história da comunidade negra, esse mesmo acessório que um dia dividiu gangues, encontrou uma força maior para unir: os protestos históricos do Black Lives Matter.
Em um desses protestos, testemunhamos membros dessas gangues rivais amarrando bandanas vermelhas e azuis juntas e levantando seus punhos.
A bandana, então, deixou de ser bandeira de disputa de território periférico para simbolizar uma luta maior contra a injustiça racial, reforçando aquilo que Sabotage já dizia: a gente faz, corre atrás, pede a paz.


Porque se o rap tá comigo, eu não me sinto excluído
Paralelamente a história da bandana com as gangues de LA, o hip-hop, especialmente o subgênero gangsta rap de grupos como N.W.A. e artistas como Snoop Dogg (associado aos Crips), levou a realidade crua dessa guerra para as paradas mundiais.
Aqui, a bandana vira símbolo visual da narrativa que o rap contava sobre bairros negligenciados, juventude negra criminalizada, orgulho racial, trauma e potência.
E é nesse momento que a história das bandanas começa a rimar com o rap.
Assim, nos anos 1990, a bandana explode com o estilo gangsta rap.
Tupac Shakur é um dos maiores símbolos dessa tendência e usava frequentemente a bandana preta ou vermelha, o que faz com que muitas pessoas o associassem a gangue dos Bloods, embora não existam registros históricos de sua filiação com esse movimento.
Snoop Dogg, por sua vez, representava sim a cultura Crips, pois cresceu em uma área dominada por essa gangue e constantemente usava a bandana azul.

Para saber mais da relação de Snoop Dogg com os Crips, que o levou ao tráfico e a prisão, vale a pena conferir o vídeo abaixo:
E engana-se quem pensa que a influência do uso da bandana como acessório-chave da moda do hip-hop ficou restringida a LA.
Na Costa Leste, grupos como Wu-Tang Clan (cuja estética misturava kung fu com a rua) e Mobb Deep adotaram o acessório.
The Notorious B.I.G. também foi visto frequentemente com a bandana, algo que solidificou o item como parte do uniforme do rap de verdade.
No Brasil, a bandana também encontrou seu lugar na história do rap.
Em 2002, os Racionais MC’s lançaram o álbum Nada como um Dia após o Outro Dia.
Na capa, uma bandana vermelha estava pendurada no bolso de uma calça.
Ali, o mesmo símbolo que nos EUA demarcava territórios de gangue, no Brasil se traduzia em pertencimento e orgulho para toda uma geração que veio das periferias.

Eu sou a continuação de um sonho
Ainda nos anos 1970, a história da bandana passava por outra revolução além da briga de gangues e da estética do hip-hop: ela virou um símbolo do Movimento Chicano.
Nesta época, a palavra “chicano” era usada como ofensa para pessoas de origem mexicana nascidas ou criadas no país.
Era um rótulo que tentava empurrar essa população para um lugar de não pertencimento, ou seja, nem totalmente aceita como americana, nem reconhecida como mexicana.
Foi com esse sentimento de exclusão social e cultural que nasceu o Movimento Chicano, para lutar contra a discriminação racial e a invisibilidade social.
Aqui, os jovens chicanos amarravam a bandana no rosto e no pescoço como forma de resgatar esse acessório que foi muito presente na Revolução Mexicana (1910-1920).

Na Revolução Mexicana, camponeses revolucionários do México, especialmente figuras como Emiliano Zapata, usavam lenços para se proteger do sol e da poeira dos longos dias de batalha e, mais importante, representava a luta dos pobres, dos camponeses e dos indígenas por terra e justiça.
Então, quando os jovens ativistas chicanos adotaram a bandana nos anos 1970, além de criarem uma nova moda, costuraram um elo direto com essa linhagem revolucionária.
Eles foram a continuação de um sonho de quem correu para eles andarem em paz.
Para esses jovens, usar uma pañoleta vermelha era um ato político potente, uma forma de reivindicar uma herança indígena e camponesa que havia sido desprezada tanto pelo discurso branco americano quanto pelas elites mexicanas.
Assim, para esse movimento, a história da bandana deixa de ser só acessório e vira um elo ponte entre gerações.

Quando a bandana ganha às cores do arco-íris
Enquanto a bandana gritava orgulho nas marchas chicanas, separava gangues nas periferias e era símbolo estético no hip-hop, ela também sussurrava segredos da comunidade gay.
Na Nova York das décadas de 1970 e 1980, ser um homem gay era viver sob vigilância constante.
O preconceito era lei não escrita, a violência era cotidiana e a exposição podia custar trabalho, família e vida social.
Nesse contexto, a história da bandana entra em cena como linguagem cifrada e dá vida ao “Código do Lenço” ou Hanky Code.
Tratava-se de uma linguagem discreta da comunidade gay masculina baseada em bandanas coloridas usadas no bolso de trás da calça, em que cada cor e forma de usar indicava preferências, interesses ou papéis sexuais.
Por exemplo, ao usá-la no bolso direito, sinalizava que a pessoa assumia o papel de ativo, já no bolso esquerdo, sinalizava que a pessoa era passiva.
Quanto as cores, o azul claro poderia significar sexo oral, preto era associado a BDSM, xadrez vermelho indicava fisting, e assim por diante.
Assim, a história da bandana na comunidade gay masculina funcionava como uma senha para quem estava na margem da legalidade social e abriu espaço para encontros, conexões e afetos.
Mais do que um simples “catálogo” de interesses, o Hanky Code era um ato de resistência e comunidade.

Como usar bandana hoje?
Depois de atravessar o Velho Oeste, revoluções, movimentos periféricos, cenas urbanas e códigos de resistência, a história da bandana chega aos dias atuais.
E fica a sensação de que usar esse acessório é um ato cheio de peso. E na verdade, é mesmo.
Mas a beleza desse legado está justamente na sua liberdade de ressignificação.
O resgate da história da bandana nos mostra que ela é um símbolo de transformação e, atualmente, ela é estilo e memória.
Abaixo, veja algumas formas clássicas e novas de incorporar esse ícone no seu estilo:
- no pescoço;
- como faixa de cabelo;
- na testa;
- enrolada no pulso;
- no bolso de trás;
- como cinto;
- como top;
- como prendedor de cabelo.

Bandana: o lenço revolucionário, insano ou marginal, antigo e moderno, imortal
A história da bandana passou por cowboys, mulheres negras escravizadas, políticos, gangues, artistas, comunidade gay e movimentos sociais marcantes, como o dos Chicanos e Black Lives Matters.
O acessório atravessou opressões sem perder a cor e cada estampa guarda uma luta.
E assim, vemos como um objeto simples pode ser apropriado, transformado e carregado de significados profundos por comunidades em luta.
Usá-la hoje é, conscientemente ou não, conectar-se com essa corrente de afirmação e resiliência.
É lembrar que moda também é política, que estilo também é resistência, e que até o pano mais simples pode carregar um povo inteiro.
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Conheça as músicas feitas por pretos usadas de referência neste artigo:
- Racionais MC’s: Capítulo 4 Versículo 3
- MV Bill – Só Deus Pode Me Julgar
- Sabotage – Um Bom Lugar
- Sabotage – Canão Foi Tão Bom
- Criolo – Ainda Há Tempo
- BK – Continuação de um sonho
