Um salve prós maloka, nós merece um brinde
No dia 17 de abril de 2026 foi a estreia da Adidas no Rio Fashion Week, com a proposta de unir periferia, esportes e moda em um único desfile.
A ideia não era produzir tendências em uma semana de moda. Era reconhecer uma cultura que sempre produziu estética, linguagem e identidade no Brasil.
Para isso, a marca apresentou um casting só de modelos negros para usar cerca de 40 looks construídos sobre um repertório que qualquer pessoa da periferia brasileira reconhece de bate-pronto, com símbolos como:
- cabelo loiro pivete: aquele descolorado que vira quase branco, marca registrada nas quebradas;
- tranças: herança africana de resistência e estilo;
- marquinha de fita: tipicamente feito nas lajes das favelas com fita isolante preta para desenhar o biquíni na pele;
- camisetas de time: tendência registrada nos looks das periferias brasileiras;
- black power: cabelo crespo com bastante volume.
Já no quesito esporte, o grande foco foi o futebol. E para representá-lo, a passarela foi preenchida com apitos, medalhas, luvas de goleiro, braçadeiras e até a Trionda, bola oficial da Copa, reinterpretada com a cultura dos bate-bolas.
E para abrir todo esse show, a marca chamou ninguém mais, ninguém menos do que Tasha e Tracie, as neguinha canela cinza, hoje com vários Adidas.

Valia 300, vira 10k com o toque dela: Rafaela Pinah
A força deste desfile da Adidas no Rio Fashion Week passa diretamente por quem conduziu a narrativa: Rafaela Pinah, uma mulher negra, trans e cria de Realengo, Zona Oeste do Rio.
Rafaela é estilista, diretora criativa e fundadora do Coolhunter Favela, um projeto que pesquisa etraduz os movimentos culturais das periferias para o mercado, para marcas e para o mundo.
Em seu portfólio, ela já trabalhou com Alcione, BK, Gilberto Gil, L7, Liniker, entre outros nomes potentes da cultura negra, além de ter levado seu trabalho até a Expo Favela Paris.
Seu currículo mostra que a escolha dela para assinar a direção deste desfile de estreia da Adidas não foi uma aposta. Foi um reconhecimento.
Isso porque, ter em uma produção desta magnitude um olhar como o da Rafaela, vindo de dentro, garante legitimidade. E é esse fator que impede que o desfile caia na armadilha da estetização vazia das favelas.

E para essa missão, Rafaela integrou profissionais periféricos ao desenvolvimento do projeto desde o início até o fim.
Um desses nomes foi Vitu Freire, parceiro dela no Coolhunter, que reforçou a escala do que foi apresentado na passarela da Adidas no Rio Fashion Week:
O mais importante é mostrar a imensidão que tem a favela. É tudo que a gente tem pesquisado nesses últimos dez anos: entender o quão rica é a cultura carioca, a periferia do Rio de Janeiro.”
— Vitu Freire, ao Hypebeast Brasil
Meu bairro é simples, não tem asfalto, mas meu tênis valeria um assalto
A Adidas sempre teve uma conexão com a periferia, já que suas peças se tornaram itens de desejo nesses espaços, assim como naturalmente aconteceu com o Kenner.
E entre as peças da marca que foram hype nas comunidades, está o Megaride, um tênis lançado pela Adidas no início dos anos 2000 como modelo de corrida.

Ao ser apropriado pela cultura de rua, o Megaride passou a ser presença nos campinhos de várzea, nos bailes de funk, nos rolês de skate e nos corredores das escolas públicas.
Ou seja, essa relação foi além do consumo e tornou-se sobre pertencimento.
Quando eu pensei em desenhar esse desfile, a gente começa por esse objeto de desejo que é o Megaride. (…) É um tênis que a periferia brasileira abraçou, potencializou e jogou ainda mais para frente.”
— Rafaela Pinah, diretora criativa do desfile, para SneakersBR
No desfile da Adidas no Rio Fashion Week, o Megaride funciona como fio condutor do tema central (periferia, esportes e moda) porque ele já pertence àquele universo. Ele não precisa ser inserido, ele já está lá.
A ideia de que ele é “um tênis que a periferia abraçou” resume bem esse processo. Não foi a marca que construiu esse significado. Foram as pessoas.
E é justamente por isso que ele sustenta a narrativa do desfile da Adidas no Rio Fashion Week com tanta naturalidade.
Placar final: moda 1 x 1 futebol
Para entender o impacto desse evento, é importante olhar para o caminho que moldou essa estética.
O futebol, no Brasil, sempre foi mais do que um esporte. Ele funciona como espaço de formação social, cultural e estética. É com base nele que se constroem diversos códigos de comportamento, de vestimenta e de expressão.
A gente, oriundo de favela, tem uma conexão diretamente com o esporte. Eu acho queo esporte, pro brasileiro, é a primeira oportunidade de saída de uma situação às vezes hostil, às vezes de um mundo de invisibilidade... por isso que a gente é muito apaixonado pelo esporte, especificamente pelo futebol.”
— Rafaela Pinah

Aqui, vale ressaltar que nos anos 90 e 2000, com a expansão das marcas esportivas, elementos do uniforme esportivo foram sendo incorporados ao cotidiano, com grande destaque para as camisetas de time.
E essa transformação não veio das marcas, mas sim das ruas.
Foi a periferia que transformou performance em estilo. Que ressignificou o uso dessas peças. Que criou uma linguagem própria a partir desse repertório.
O que a passarela da Adidas no Rio Fashion Week apresenta agora é o reconhecimento desse processo.
E esse reflexo foi visto também no público que estava lá para prestigiar o evento, conforme destacou influencer de futebol Rene Ramirez, em seu vídeo de cobertura, ao destacar especialmente o uso das camisetas de time como tendência de moda no evento:
Esse é o espelho derradeiro da realidade
O que aconteceu na passarela do RFW não é um fenômeno exclusivamente brasileiro, é um padrão global, ainda mais quando falamos da Adidas.
Em todo mundo, a Adidas sempre foi apropriada por subculturas periféricas que ressignificaram completamente a marca e a transformaram em símbolo de identidade, pertencimento e poder.
- Na Rússia, os gopniks, jovens de classe baixa que os setores médios chamavam de marginais, fizeram da Adidas praticamente um uniforme identitário, com o agasalho de três listras como símbolo de pertencimento.
- Na Argentina, os turros são pessoas de classes populares que adotam uma estética de “wannabe gangster” e associaram seu estilo fortemente ligado ao sportswear.
- No México, os cholos são uma subcultura urbana, frequentemente ligada a jovens de classes trabalhadoras e gangues de rua, que também fizeram da moda sportwear uma extensão de território e resistência.
Esses exemplos mostram um padrão que se repete: grupos marginalizados se apropriam de elementos disponíveis e constroem, a partir deles, novas linguagens estéticas.
Com o tempo, essas linguagens são absorvidas pelo centro. Mas é importante lembrar de onde elas surgem, assim como a Adidas no Rio Fashion Week fez com a moda das favelas brasileiras.
Como escreveu o Jornal de Brasília:
Ela [Rafaela] não colocou a periferia na moda, ela devolveu pra periferia o que a moda já havia pegado emprestado sem dar crédito. Megaride nunca saiu das ruas brasileiras, e agora a Adidas tem a inteligência de reconhecer isso com direção criativa de quem conhece o território de dentro.”

Ser um preto tipo A custa caro
Nas redes sociais, ao lado de elogios ao desfile da Adidas no Rio Fashion Week e à direção criativa de Rafaela Pinah, uma crítica se repete com insistência: “isso não é acessível pra favela.”
É uma tensão real, e seria desonesto ignorá-la.
Uma passarela de moda com ingressos, lista VIP e fila A com Emicida e Alice Carvalho não é exatamente o ambiente de quem passa o dia no busão ou mora a duas horas do centro da cidade.
O Megaride relançado custa valores que estão longe da realidade de quem o tornou símbolo décadas atrás.
Representatividade na estética e acesso econômico são questões diferentes. E as duas importam.
Mas também é preciso reconhecer o que o desfile fez de relevante: uma mulher preta, trans, periférica, de Realengo, com método e trajetória elaborada dentro da cultura que ela pesquisa, colocou a narrativa da favela no centro de um dos eventos de moda mais importantes do país.
Tudo isso com autonomia criativa e com profissionais periféricos do início ao fim do projeto da Adidas no Rio Fashion Week.
Isso, de fato, não resolve a questão do acesso. Mas não é pouca coisa.

Proceder pra vencer, pra crescer, prevalecer
Uma das maiores marcas de esporte do mundo convidou uma mulher preta e trans para pensar como a marca se expõe criativamente na passarela.
Esse ato, por si só, já vale parar e olhar.
Mas o que Rafaela Pinah fez foi além de representar. Ela devolveu para a periferia o crédito que a moda sempre tomou sem pagar.
O Megaride nunca saiu das quebradas. As tranças, o cabelo loiro pivete, o bronzeado de fita, as camisas de time, nunca precisaram de passarela para existir como cultura.
O que o desfile da Adidas no Rio Fashion Week fez foi colocar holofote no que já estava acontecendo.
Tudo isso foi um movimento que reposicionou a periferia como aquilo que ela sempre foi: um dos principais centros de inovação cultural do país.
Ali, a cultura não foi traduzida. Ela foi mantida.
Conheça as músicas feitas por pretos usadas de referência neste artigo:
- Tasha & Tracie e JXNV – Salve
- Tasha & Tracie – Arrume-se comigo
- FBC – Superstar
- Racionais MC’s – A Vida é Desafio
- Racionais MC’s – Capítulo 4, versículo 3
- Sabotage – Mun Rá
